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Ética Profissional Saúde Mental Psicologia Clínica

Antes de Terapeuta, Mulher: O Tabu do Assédio Cometido por Pacientes

O que fazer quando quem deveria ser cuidado cruza o limite

Equipe Cuidaty · · 3 min de leitura

A ética clínica tem um roteiro conhecido: o poder é do terapeuta, a vulnerabilidade é do paciente. Esse roteiro cobre a maior parte dos casos reais. Mas ele quebra quando a dinâmica se inverte, quando é o paciente quem cruza a linha e a psicóloga que se torna alvo dentro da própria sala de atendimento.

Existe um silêncio perigoso em torno disso. Formamos psicólogas para acolher, para compreender contextos, para ressignificar dores alheias. Só que a empatia profissional não pode custar a integridade física e pessoal de quem está do outro lado do divã.

O peso da empatia e o conflito de papéis

Um relato que virou referência na literatura clínica é o da psicóloga estadunidense Ashley Herbst. Durante um atendimento, ela foi assediada sexualmente por um paciente ao fim da sessão. A reação dela, como a de muitas profissionais na mesma situação, foi um conflito interno imediato: será que denunciar prejudica o progresso clínico dele? O histórico de sofrimento do paciente justifica o que aconteceu?

Esse é o ponto central do tabu do assédio reverso: a terapeuta tende a justificar clinicamente o abuso, só para não sair do papel de terapeuta. Foi a supervisora clínica de Herbst quem trouxe a clareza que faltava, relatada no artigo original publicado pela Society for the Advancement of Psychotherapy: naquele momento, ela não era apenas uma terapeuta. Era uma mulher que tinha acabado de ser violada. A segurança dela vinha antes de qualquer contrato terapêutico.

A escalada do abuso: do desvio à violação

Abusos raramente começam de forma abrupta. Eles seguem uma escalada bem documentada na literatura sobre ética clínica:

Desvios de limites (boundary crossings): começam pequenos. Um pedido para prolongar a sessão sem motivo clínico. Perguntas insistentes sobre a vida pessoal da terapeuta. Toques que o paciente chama de casuais.

Violações de limites (boundary violations): se os desvios não são freados com firmeza, evoluem para comentários sexuais explícitos, assédio e agressão, quebrando de vez o setting terapêutico.

Um estudo publicado na Cogent Psychology mostra que cerca de 75% dos terapeutas relatam já ter percebido algum nível de atração vinda de um cliente. Sentir atração é humano. Agir sobre ela de forma abusiva não é.

O que fazer quando o limite é cruzado

Não existe um código de ética que regule o comportamento do paciente. A responsabilidade de impor o limite, e de se proteger, é da profissional. Diante de uma violação, algumas diretrizes ajudam a atravessar o momento:

Interrompa na hora. Ao primeiro sinal de violação, o limite precisa ser verbalizado de forma assertiva e inegociável. Não tente analisar o assédio enquanto ele está acontecendo.

Busque supervisão imediatamente. O choque costuma vir acompanhado de vergonha e da sensação de incompetência profissional. Levar o caso à supervisão clínica e à rede de apoio quebra o isolamento antes que ele se instale.

Você tem o direito de denunciar. As diretrizes de sigilo do Conselho Federal de Psicologia exigem não causar dano ao paciente, mas isso não anula o direito da profissional à justiça e ao autocuidado. Prestar queixa é uma opção legítima, e em muitos casos, necessária.

Encerre o vínculo terapêutico. Continuar o atendimento depois de uma violação compromete a objetividade e a saúde mental da profissional. Encerrar o caso, com encaminhamento se for seguro fazê-lo, costuma ser a única via ética disponível.

Registro e gestão como proteção real

A organização da clínica funciona como escudo nesses casos. Manter registros rigorosos de cada sessão não é burocracia. É segurança jurídica e ética.

Um sistema de gestão e prontuário eletrônico bem estruturado permite documentar os primeiros sinais de desvio de limites: falas literais do paciente, comportamentos inadequados, e as intervenções de limite que a profissional já fez antes da situação escalar. Se um dia isso vira denúncia formal ou justifica o rompimento forçado do vínculo, um prontuário bem mantido é prova da conduta correta da terapeuta.

O consultório é espaço de trabalho, não escudo contra a realidade. Antes de terapeuta, você é uma mulher, e proteger a sua prática começa por reconhecer que a sua segurança não é negociável.

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Equipe Cuidaty

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