"Acordo de madrugada com o barulho da chuva e não consigo mais dormir." Esse relato tem aparecido com frequência crescente nos consultórios gaúchos, e não é exagero do paciente. Para milhares de pessoas no Rio Grande do Sul, o coração dispara a cada novo boletim da Defesa Civil, e a mão vai direto ao celular checar a previsão do tempo antes mesmo de acordar de verdade.
O que antes era uma preocupação abstrata com o futuro do planeta virou uma angústia concreta, sentida no corpo, no presente, e ela chega ao consultório com um nome: ecoansiedade. Reconhecer esse quadro, e diferenciá-lo de um transtorno de ansiedade generalizada, é o primeiro passo do trabalho clínico.
O Rio Grande do Sul como retrato do problema
Não é preciso ir longe para ver essa tensão em ação. Em 20 de julho de 2026, o Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Rio Grande do Sul atualizou o prognóstico hidrológico do estado, colocando cidades do oeste e do centro gaúcho em condição de atenção ou alerta por causa de chuvas de volumes moderados a elevados nos próximos dias. Entre os rios monitorados estão o Quaraí, o Ibirapuitã, o Ibicuí, o Jaguari, o Vacacaí, o Jacuí, o Pardo, o Forqueta, o Taquari, o Caí e afluentes do rio Uruguai no Alto Uruguai, além do risco de alagamento em arroios, pequenos rios e áreas urbanas. O Aviso Hidrometeorológico 10/2026 já apontava esse padrão, com previsão de chuvas de até 200 milímetros em 48 horas, rajadas de vento superiores a 90 km/h e ameaça de cheia justamente em rios como o Taquari, o Jacuí e o Caí.
O boletim é claro ao dizer que os rios citados não devem atingir a cota de inundação dessa vez. Mas para quem já viu a água subir na porta de casa, essa ressalva técnica não desliga o alarme interno. A situação de inundação próxima ao Rio Quaraí, na fronteira com o Uruguai, e o histórico recente de cheias em praticamente todo o estado bastam para o corpo entrar em alerta antes mesmo de a chuva prevista se confirmar.
95% dos municípios gaúchos já foram atingidos por inundações recentes. Com um histórico desses, faz sentido que o sistema nervoso da população local viva em estado de alerta permanente, e que qualquer previsão de tempestade vire motivo de insônia antes mesmo de a chuva começar.
Existe uma explicação neurológica para isso. A amígdala, a região do cérebro que detecta perigo, fica hipersensível e perde a comunicação com o córtex pré-frontal, a área que normalmente regula essa resposta. O corpo passa a ser inundado cronicamente por cortisol, o hormônio do estresse. Não é força de vontade que resolve isso.
Um problema que já tem escala
Uma pesquisa da Universidade de Bath, citada em estudo publicado na Psicologia USP, mostrou que 50% dos jovens brasileiros relatam prejuízo no funcionamento psicossocial do dia a dia por causa da crise ecológica. Em nível global, 39% dos jovens entrevistados afirmam hesitar em ter filhos por medo do colapso ambiental.
Esse sofrimento, porém, não é distribuído de forma igual. Em reportagem do Jornal da USP, a pesquisadora Mariana Leal de Barros e o professor Márcio Henrique Ponzilacqua, ambos da USP, chamam atenção para o racismo ambiental: comunidades ribeirinhas, moradores de favelas e populações marginalizadas são historicamente empurrados para as áreas de maior risco geológico e ficam de fora das infraestruturas de proteção. O luto ecológico bate mais forte em quem já tinha menos.
O papel do psicólogo diante de um medo que é real
Diante de uma ameaça estrutural e coletiva, reduzir o pavor de uma enchente a um simples desequilíbrio neuroquímico individual seria um erro clínico. O medo, aqui, é uma resposta proporcional à realidade, não uma distorção dela. E é esse o primeiro ajuste de postura que o profissional precisa fazer diante de um paciente com ecoansiedade: validar o sintoma antes de tratá-lo.
Quando a apreensão com o próximo boletim da Defesa Civil passa a atrapalhar o sono, a concentração no trabalho ou a relação familiar do paciente, o papel do psicólogo não é prometer tirar o medo do mapa. É ajudar a reorganizar como o corpo desse paciente reage a ele, especialmente em regiões como o Rio Grande do Sul, onde esse tipo de demanda tende a crescer junto com a frequência dos alertas climáticos.
É por isso que profissionais da saúde mental têm recorrido a abordagens como Terapias Somáticas e EMDR. Essas técnicas ajudam o corpo a processar a energia de sobrevivência que ficou represada e reprocessam as memórias traumáticas de desastres, devolvendo alguma estabilidade ao sistema nervoso.
Há também um trabalho de desconstrução do que o filósofo Mark Fisher chamou de "realismo capitalista", conceito retomado no mesmo estudo da Psicologia USP: a sensação de que a destruição é inevitável e qualquer mobilização, inútil. Essa crença paralisa. E paralisia, no meio de uma crise real, é o pior lugar para ficar.
O antídoto não é calar o medo, é agir com ele
Uma diretriz clínica importante para quem atende esses casos: angústia diante da degradação do próprio habitat não é doença a ser eliminada. É prova de empatia e de uma conexão biológica real com a Terra, e o tratamento não deve mirar em apagá-la.
O objetivo terapêutico é outro: ajudar o paciente a trocar o desespero solitário pela esperança ativa, a postura de parar de esperar por dias melhores e passar a construí-los através de movimentos comunitários e coletivos. Nesse processo, o psicólogo não trabalha para fazer o medo desaparecer. Trabalha para transformá-lo em combustível, e é isso que separa o paciente que trava do que segue em frente.
Equipe Cuidaty
Equipe Cuidaty