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Dia do Psicólogo · Carreira · Psicologia Clínica

"Talvez Você Deva Conversar com Alguém": as Lições de Lori Gottlieb para o Dia do Psicólogo

Você já parou para pensar o que acontece quando a vida do seu psicólogo desmorona? Lori Gottlieb respondeu isso num livro inteiro, e a resposta é o melhor jeito de comemorar o 27 de agosto

Equipe Cuidaty 5 min de leitura

Você já parou para pensar o que acontece quando a vida do seu psicólogo desmorona?

Não é pergunta retórica. Alguém sentou e escreveu um livro inteiro respondendo, e o livro virou fenômeno mundial justamente porque quase ninguém tinha coragem de abrir essa porta.

A terapeuta que precisou de terapeuta

Em Talvez você deva conversar com alguém, Lori Gottlieb faz uma coisa arriscada para uma psicoterapeuta. Ela conta que levou um fora, desmoronou e foi bater na porta de outro terapeuta, o Wendell. Enquanto isso, seguia atendendo os próprios pacientes: o roteirista cínico que chamava todo mundo de idiota, a jovem com câncer terminal, a idosa que achava que tinha desperdiçado a vida inteira.

O livro alterna as duas cadeiras. Num capítulo ela é quem escuta. No outro, é quem chora no sofá e implora por uma resposta que ninguém pode dar.

Capa do livro Talvez Você Deva Conversar com Alguém, de Lori Gottlieb: fundo amarelo com uma caixa de lenços azul e lenços amassados.
Capa da edição brasileira, publicada pela Vestígio. O subtítulo entrega a proposta: uma terapeuta, o terapeuta dela e a vida de todos nós.

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Hoje é 27 de agosto, Dia do Psicólogo, data que marca a regulamentação da profissão no Brasil, em 1962. E a homenagem mais honesta que a gente consegue fazer não começa elogiando técnica, formação ou currículo. Começa exatamente onde a Gottlieb começa. Separamos quatro lições do livro para levar para a vida, e para dentro do consultório.

Lição 1: a linha entre quem cuida e quem precisa de cuidado não existe

É a tese que sustenta o livro inteiro, e ela é desconfortável. A graduação sugere uma fronteira nítida: de um lado o profissional, treinado e estável; do outro o paciente, em sofrimento. Gottlieb passa quatrocentas páginas mostrando que essa fronteira é uma convenção do setting, não um fato sobre as pessoas.

Ela erra. Fica irritada com paciente. Se emociona junto. Julga alguém no primeiro encontro e descobre, capítulos depois, o tamanho da própria miopia. Nenhum desses momentos aparece no livro como fracasso profissional. Aparecem como o núcleo da coisa.

Lição 2: quem faz alguém soltar as grades é uma pessoa, não uma técnica

Numa das sessões, Wendell descreve um desenho clássico que virou a imagem central do livro. Um prisioneiro sacode as grades da cela com toda a força, desesperado para sair. Só que as grades existem apenas na frente dele. Dos dois lados, a cela é aberta. Bastava contornar.

Ninguém enxerga isso enquanto está com as duas mãos ocupadas segurando as grades. E quem faz a pessoa soltar não é um protocolo. É outro ser humano, sentado ali, disposto a ficar na cela junto por um tempo até que dê para olhar em volta.

A cela com grades só na frenteUm prisioneiro segura as grades de uma cela. As grades existem apenas na frente dele. Dos dois lados a cela e aberta e ha passagem livre, indicada por setas.ABERTOABERTOAs grades existem só na frente. Dos dois lados, basta contornar.Capítulo 22, “Prisão”
Ilustração da Cuidaty a partir da imagem que Wendell descreve no capítulo 22 de Talvez você deva conversar com alguém.

O paciente não se sente acolhido porque a interpretação foi tecnicamente correta. Ele se sente acolhido porque percebe, de um jeito pré-verbal, que tem alguém inteiro na sala. Alguém que também já perdeu gente, também já teve medo do futuro, também já ficou sem saber o que fazer da própria vida num domingo à tarde. É essa presença que sustenta a aliança terapêutica. A técnica organiza o trabalho. A humanidade é o que faz o trabalho acontecer.

Lição 3: se afetar não é falha de manejo

Existe um mito de formação que produz muito sofrimento em silêncio: o de que sentir alguma coisa com o paciente é erro. Que profissional bom é profissional que não se abala. Que se você saiu de uma sessão pensando naquilo no chuveiro, algo deu errado no seu setting.

Não deu.

Gottlieb escreve sobre chorar depois de uma sessão, sobre carregar a história de alguém pelo resto do dia, sobre não saber o que dizer e simplesmente ficar ali. O que ela mostra é que a diferença entre se afetar e se perder no caso não está em blindar o afeto. Está em ter onde levá-lo: supervisão, análise pessoal, pares. O afeto não é o problema. O afeto sozinho, sem lugar nenhum para ir, é.

Lição 4: cuidar de quem cuida é condição de trabalho, não luxo

Escutar dor alheia quarenta horas por semana cobra caro. Fadiga por compaixão, esgotamento, aquela sensação de estar drenado num nível que férias não resolvem. Psicólogo não é feito de material diferente do resto das pessoas.

E o desgaste nem sempre vem do volume. Às vezes vem de uma sessão só, como nos casos em que é o paciente quem cruza o limite. O livro é, no fundo, a demonstração prática disso: uma terapeuta experiente, com anos de clínica nas costas, que precisou de terapia para continuar exercendo. Supervisão, terapia própria, descanso, agenda que caiba num ser humano. Nada disso é mimo. É infraestrutura da profissão.

E aos estudantes de psicologia

Para quem ainda está na graduação, atravessando estágio, primeira supervisão, o pânico da primeira sessão de verdade: a insegurança que você sente não é sinal de que escolheu errado. É sinal de que entendeu o tamanho da responsabilidade.

Ninguém entra numa sala de atendimento pela primeira vez se sentindo pronto. Gottlieb, veterana, descreve exatamente a mesma dúvida diante de casos difíceis. A diferença entre o estudante e o profissional experiente não é a ausência de dúvida. É o que cada um faz com ela: leva para a supervisão, estuda, discute, tolera não saber por mais tempo sem se desesperar.

Vocês estão entrando numa profissão que o Brasil precisa com urgência. E vão entrar num mercado que ainda não paga o que essa urgência vale. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é bom saber disso desde já.

Para quem atende no consultório, no SUS, na escola, na empresa, no hospital, no online. Para quem supervisiona, pesquisa e forma as próximas turmas. Para quem ainda está no quarto ano lendo caso clínico de madrugada e se perguntando se dá conta.

O que vocês fazem sustenta gente de pé todo dia, e boa parte disso acontece sem ninguém ver.

Parabéns pelo dia. Estaremos sempre do lado de vocês.

E

Equipe Cuidaty

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